Travel Journal - 7 dias no Tibet - Uma viagem pelo Teto do Mundo












Junho de 2003

De Kathmandu no Nepal à Lhasa no Tibet: 1.500Km de estrada pelo Teto do Mundo

Minha vontade era fazer uma viagem independente ao Tibet, porém ao chegar em Kathmandu fui informado pelo Consulado Chinês que não era mais permitida a entrada de estrangeiros independentes no território tibetano. Fui obrigado a me juntar a um grupo de espanhóis e alemães e então juntos alugamos camionetes 4x4 com motoristas chineses para nos levar até Lhasa.

Cruzamos a "Friendship Bridge" que liga o Nepal ao Tibet à pé, caminhamos com nossas mochilas por 8 km por meio a uma espécie de terra de ninguem, passamos pela imigração chinesa e logo encontramos os nossos motoristas. Éramos um comboio de cinco carros.

Uma semana antes da viagem passei em repouso me recuperando de uma intoxicação alimentar (adquirida na Índia) no quarto de uma guesthouse “trash” na Thamel em Kathmandu que parecia mais um inferno. Febre alta, câimbras, dores e muito suor. E para complicar anda mais estávamos no meio de uma epidemia de SARS. Se eu resolvesse pedir ajuda médica correria o risco de me colocarem em quarentena dentro de um hospital.

Eu ainda não estava 100% recuperado, mas mesmo assim decidi seguir viagem para o Tibet. Foi apenas eu pisar em território tibetano que me deu a maior dor de barriga e quanto mais alto subiamos menor era a pressão atmosférica lá fora e maior a pressão dentro das minhas tripas. Tive a sensação de ter um bote inflável explodindo dentro do meu estômago. Sem dúvida uma experiência para não esquecer nunca mais.

Muitas curvas montanhas acima, precipícios, desfiladeiros, tempestades de neve e muitos yaks, uma espécie de vaca peluda que vive nas montanhas gélidas. Aos poucos fomos cruzando os Himalayas e logo alcançamos o planalto tibetano. A escassez de oxigênio se nota já de primeira e o cansaço e tontura são imediatos.

A altura média do planalto tibetano é de 5.000m acima do nível do mar. Impressionante é olhar pra trás e ver a cadeia dos Himalayas lá
de cima. Uma falsa impressão, as montanhas não parecem altas pois como já estamos a 4.000-5.500m de altura tem apenas mais 4.000m de montanha acima de nós.

A viagem até Lhasa leva 5 dias e passamos por todos os tipos de paisagens. De cenários polares nos 5.500m durante os passes mais altos a desertos com tempestades de areia e pradarias verdes com manadas de yaks.

Cruzamos os pequenos vilarejos no interior do Tibet: Shigatse, Lhotse e Wantse e visitamos seus monastérios budistas. Impressionante sua paz e espiritualidade. Logo percebemos que realmente o Tibet está em outra dimensão num outro mundo talves esquecido por nós.

A viagem teria sido perfeita não fosse um acidente ocorrido no ultimo dia de estrada antes de chegar a Lhasa. Um dos nossos 4x4 com os companheiros alemães despencou precipício abaixo. Foi muito triste passar ao lado do acidente e ver seus corpos enfileirados à beira da estrada. Podíamos ver suas mochilas e roupas espalhadas ao longo do penhasco. Mais forte ainda pensar que dias antes havíamos jantados todos juntos na mesma mesa...e ainda pior...aquele carro acidentado poderia ter sido o meu.

Finalmente após 1.500Km de chão chegamos em Lhasa. Uma grande decepção. Mais parece uma grande cidade chinesa de concreto com prédios modernos, hotéis de cadeias internacionais, cyber cafés, freeways e favelas. Uma imagem completamente oposta a que eu tinha imaginado antes de chegar lá. Tudo isso culpa de Mao Tse Tung e do governo chinês que promoveu uma imigração em massa de chineses ao Tibet para poderem obter o controle da região. Com isso a cultura tibetana foi praticamente destruída. O verdadeiro Tibet existe “ainda” apenas nos pequenos povoados no interior do país.

Impressiona também o retorno de avião para Kathmandu onde o avião passa literalmente o lado do cume do Mt. Everest a 8.848m de altura. È possível notar a cor azul escura do céu a sua volta e o cume piramidal da montanha.

Esta é uma viagem muito árdua e complexa devido às condições físicas e naturais do terreno: altitudes elevadas, grandes variações de temperatura e ar quase que rarefeito. Devido ao degelo da neve no verão as estradas são muito ruins. Driblar os trâmites burocráticos do governo chinês não é uma tarefa fácil também.

Quem sabe algum dia os chineses desocupem essa região e assim o Dalai Lama e os milhares de refugiados tibetanos possam voltar a viver tranqüilos em seu lar.

Por Raul Frare