Trans-Siberiana




















“Volte em três semanas”. Foram as palavras que escutei, num russo seco e ardido, da oficial da seção consular da Embaixada da Rússia em Ulanbator na Mongólia ao deixar minha documentação e pedido de visto. Pensei arrependido: quem mandou deixar tudo pra ultima hora e não aplicar em casa? O que faria eu em mais três semanas de Mongólia? Em três semanas eu já deveria estar em Moscou...

Para quem não sabe o visto de entrada russo é um dos mais chatos que existe: ultra complicado, ultra burocrático e absurdamente caro. E ainda se você está fora de casa fica tudo dez vezes mais difícil. E multiplique isso por ainda mais dez se você está num país como a Mongólia.

Apesar de aborrecido acabei digerindo bem a idéia. Durante as três semanas de espera estive no deserto de Gobi no sul do país, um lugar fantástico e inexplorado de beleza incrível. Passei pelas estepes centrais onde fiquei hospedado por alguns dias num Ger, uma espécie de cabana onde vivem os nômades da região. Cavalguei durante todos os dias no melhor estilo Gengis Khan, bebi leite de cavalo e comi carne seca de camelo. Mas essa estória deixarei para contar numa próxima matéria.

Com o visto na mão peguei o trem Trans-Mongol em direção a Sibéria. Na saída de Ulanbator, início da viagem, conheci dois ingleses de Manchester que estavam no vagão vizinho e tiveram suas carteiras roubadas ao subir no trem. Na Mongólia também acontecem esses imprevistos!

A viagem até Ulan Ude, capital da República da Buriatya, uma das republicas que formam a Federação Russa, dura mais de 36 horas. A maior parte parado na fronteira, desembaraçando o trem para sair da Mongólia e entrar na Sibéria. Os contrabandistas correm de vagão em vagão temerosos e agoniados escondendo as caixas de mercadorias pelos compartimentos.

Para complicar ainda mais o trem onde me encontrava procedia de Beijing na China, cidade que naquela época padecia de SARS, a mortífera pneumonia asiática. As agentes sanitárias russas, usando luvas e mascaras bem vedadas, tiravam a temperatura de cada passageiro e apresentando-se qualquer sintoma atípico era vedada a entrada no país.

Em Ulan Ude, fiz o registro do meu visto e segui para Irkutsk nas proximidades do Lago Baikal.

O Lago Baikal é bonito demais! Realmente impressionante. Sozinho, possui mais água que todos os grandes lagos americanos juntos. Além de ser o lago mais fundo do mundo, teria a capacidade de abastecer sozinho toda a população terrestre por 40 anos.

Tentei arriscar um mergulho nas suas águas gélidas de 4°C após uns shots de vodka, mas não foi possível.

Em três dias de Baikal deu pra recarregar toda a energia. Fiquei hospedado na casa de uma vovó simpática chamada Valentina. Como o mundo é pequeno: estava eu caminhando às margens do lago, tranqüilo comendo uma truta defumada e buscando lugar para dormir quando encontrei meus amigos ingleses que conheci no trem na saída da Mongólia, os da carteira roubada, e assim acabei na casa onde eles estavam, da vovó Valentina.

Do Lago Baikal peguei um vôo de quatro horas com a Air Vladivostok para a cidade de mesmo nome. Que medo! Voar num Tupolev caindo aos pedaços de 40 anos é uma experiência única que com toda certeza evitarei repetir.

O alivio da chegada em Vladivostok durou pouco. Na porta do avião tive meu passaporte checado pela polícia e em seguida me detiveram, pois esta cidade não constava descrita no meu visto de turista e queriam saber que diabos fazia eu naquele lugar. Será que tenho pinta de espião?

Tentei sem êxito chamar minha embaixada, e após seis horas junto com mais três jornalistas coreanos na mesma situação fomos todos inesperadamente liberados.

No Oceano Pacifico, Vladivostok é a extremidade leste da ferrovia Trans-Siberiana, e no meu caso, o ponto de partida para minha viagem de 9.289 Km até Moscou.

É também uma cidade que sempre me fascinou desde os tempos de War. Um ponto super estratégico muito próximo à Coréia do Norte, China e Japão e sede da frota marinha russa do Pacifico. Durante os anos soviéticos e até poucos anos atrás esta cidade estava proibida para estrangeiros.

Conheci a cidade, bem interessante por sinal, mas meio traumatizado e com um pouco de receio pela situação do meu visto. Finalmente consegui pegar o primeiro trem em direção a Moscou.

Fiz uma parada em Khabarovsk, às margens do Rio Amur na fronteira com a Manchúria. Uma cidade bem agradável e até com duas praias artificiais às
margens do rio.

De Khabarovsk fui a Novosibirsk numa puxada de três dias sem sair do trem. Nesse longo trecho, quase todo dominado pelas florestas de Taiga e pelo Lago Baikal, li "O Idiota" de Dostoievski quase pela metade, comi muita mortadela com pepino, tomei cerveja com meus companheiros de cabine e decorei todo o alfabeto cirílico.

Quando não agüentava mais comer macarrão instantâneo, tomar sopa de pacote e tentar me comunicar em russo sem muito sucesso com meus companheiros de cabine chegamos em Novosibirsk, a grande cidade da Sibéria Central.

Consegui descolar uma cama no disputado hotel da estação de trem, mais difícil que ganhar na loteria segundo o Lonely Planet, e tomar um banho de água quente pela primeira vez em dez dias de Sibéria.

Novosibirsk, as margens do Ob, um dos maiores rios do mundo cujo delta é lá no Ártico, é uma grande cidade, com uma excelente rede de metrô, famosas universidades, teatros e bons restaurantes. Foi também durante os longos anos de comunismo um dos maiores centros de pesquisas dos cientistas da Ex-URSS.

Passei também por Yekaterinburg, cidade natal de Boris Yeltsin, centro industrial e das riquezas naturais dos Montes Urais. Esta cidade é historicamente mais conhecida por ter sido o local onde o czar Nicolai II, sua esposa e crianças foram assassinados pelos Bolcheviques durante a Revolução Russa em 1918.

No dia seguinte embarquei no famoso Rossiya, trem número 01, e após mais algumas sopas de pacote e macarrão instantâneo, cruzando os Urais, saindo da Eurásia e entrando na Europa, cheguei em Moscou na famosa estação Yaroslav: ponto final da minha aventura Trans-Siberiana.

Como foi bom chegar em Moscou depois de dias dentro de um trem! Cosmopolita, agitada e organizada, Moscou oferece inúmeras opções de lazer, gastronomia e cultura. Suas estações de metrô são verdadeiras obras de arte. O teatro Bolshoi é um espetáculo à parte. A arquitetura soviética dos prédios em blocos, sua Praça Vermelha, o sarcófago de Lênin onde é possível vê-lo mumificado, as lojas GUM, e o Kremlin nos dão a certeza que Moscou é uma cidade que não perde em nada para nenhuma outra grande cidade européia.

A ferrovia Trans-Siberiana, uma das maiores maravilhas do mundo moderno, atravessa grandes rios, corta montanhas, florestas densas e vastas estepes cobertas de neve durante a maior parte do ano. Liga os extremos Leste-Oeste do maior país do mundo. O início de sua construção em 1891 foi um grande marco da engenharia e consolidou o vasto território russo. Seus 9.289 Km unindo Moscou ao Oceano Pacífico são percorridos em sete dias de trem, o que fazem dela a mais longa viagem de trem existente percorrendo um terço de nosso planeta.

Por Raul Frare